Bendito ChaChaCha!
sábado, julho 4th, 2009 | Beber, Ver, Viver | Comente!
Amanhã, dia 05 de julho, 11h da manhã, os Retrofoguetes lançam oficialmente seu novo album, ChaChaCha, em traje de gala: na sala principal do Teatro Castro Alves, às 11h da manhã - com o auxílio e guarnição luxuoso de parte da big-band jazz-nagô Orkestra Rumpilezz e da Sinfônica da Bahia (percursão clássica: tímpanos e vibrafones), sob regência de Letieres Leite em pessoa - que aliás fez o premiado arranjo pra faixa de trabalho deste disco, Maldito Mambo.
Sem venda de ingresso antecipado, no esquema pagou-entrou. Quanto custa? R$1,00 a inteira - R$0,50 a meia. Sim, CINQUENTA CENTAVOS.
O Segredo Brasileiro: meu tesouro, meu torrão
sexta-feira, julho 3rd, 2009 | Viver | Comente!
É o primeiro vôo cujo pouso aplaudo, e vejo ser aplaudido, em décadas - esse de Fortaleza a São Luís, ontem. Não que o pouso fosse esplêndido - cagado, como só a Varig não fazia.
Mas, assim que a fronteira maranhãense foi cruzada, o piloto faz vôo panorâmico sobre os lençois. E explica detalhes de cada cidadezinha de entrada nele.
Nisso, os que não são maranhãenses de primeira viagem começam a entoar baixinho no avião, mas audivel, Toada Para O Meu Torrão, de Humberto Maracanã, do bumba-boi de mesmo nome (Sotaque de Matraca):
“Na Praia dos Lençois tem um touro encantado e o reinado do Rei SebastiãoNo mês de junho tem o bumba-meu-boi que é festejado em louvor a São João o amo canta e balança o maracá a matraca e o pandeiro é quem faz tremer o chão”
Choro.
Pousa, e é aquele céu anil, Anil como o rio que divide a Ilha Encantada no meio. Anil, como nem Brasília sabe ter. E aquele calor de útero, que não cessa. E aquela luz ateniense como a de Salvador.
Inevitável pensar: é muito bom estar em casa de novo.
Em casa, porque São Luís é a maior e mais distante cidade do Recôncavo Bahiano: nem o sotaque difere. É a irmã-caçula de São Salvador da Bahia de Todos os Santos, de Cachoeira, de Santo Amaro. Dois mil quilômetros não são suficientes para não fazê-la a cidade mais parecida com Salvador em tudo. Até caruru, com nome de cariru, eles têm: sem dendê, e sem malícia, claro.
E penso: por que o Maranhão é tão mal-divulgado, culturalmente - ele que nada deve a Pernambuco e Bahia?!
Depois digo: deixa prá lá. Como diz uma propaganda do governo: é um “segredo do Brasil”. Feliz do brasileiro que o descobrir…
A Dois de Julho alça vôo
quarta-feira, julho 1st, 2009 | Viver | 2 Comentários
Amanhã, a Orquestra Jovem Dois de Julho (Neojibá, a melhor sinfônica jovem da América Latina), faz seu último ensaio antes de ir para São Paulo abrir, no domingo dia 5 de julho às 16h, o badalado Festival de Inverno de Campos do Jordão.
Este ensaio vai ser aberto, e imperdível. Se estivesse em Salvador, eu iria de com força! 11h e 30min da manhã, na sala principal do Teatro Castro Alves.
A Neojibá toca também sábado, dia 4, 15h no Sesc Itaquera, na capital paulsita.
Tem um grupo de viúvas do axezismo querendo fazer passeata de protesto no Cortejo da Cabocla, dizendo que “a cultura na Bahia está morrendo”. Como na Parada de Dois de Julho vaia-se até minuto de silêncio (eu mesmo já abracei Grampinho e gritei “vou votar em você!”, por puira xibietagem), tudo bem.
Mas os que vivem, e fazem viver, a cultura não estarão lá. Estarão vendo os “meninos de Ricardo Castro” esquentando as palhetas, os arcos e os tamborins pra fazer a Paulicéia babar de inveja.
E depois, vão forrofiar no Pelourinho, com o talentosíssimo Targino Gondim e outros, a partir de meio-dia, em homenagem a expulsão dos Madeira-Podre - os de 1823 e os de hoje…
A Questão Costa-Pinto
terça-feira, junho 30th, 2009 | Viver | 1 Comentário
A questão que se avoluma desta vez contra o Secretário Estadual de Cultura, Marcio Meirelles, é a da suposta falência do Museu Carlos Costa Pinto - maior acervo privado de peças históricas do país.
Em que pese que desde já deixo claro uma coisa: a culpa não é, como Mário Kertzs et caterva têm alardeado, da Secretaria de Cultura. Não houve corte de verba, mas retificação. O Costa Pinto continua recebendo o teto máximo de repasse permitido pelo Tribunal de Contas do Estado, como mostra o blog da SECULT.
Por outro lado, se a culpa não é de Marcio, a responsabilidade politicamente será. E com razão.
Não se quer dizer, com isso, que cabe ao Estado arcar com os ônus de um museu privado, por mais importante que este seja. O Teatro Castro Alves, estatal, não é plenamente financiado pelo Estado: parte de seu orçamento vem do aluguel de sua pauta na sala principal (uma das mais caras da América Latina, e com razão), e do cachet de apresentação de suas duas Sinfônicas (Neojibá e OSBA - esta última apenas quando fora do estado da Bahia) e de seu corpo de baile permanente.
A questão do Costa Pinto se relaciona por um lado com uma visão museológica elitista e arcaica por parte da instituição (e que não era presente no Governo do Estado mesmo durante o carlismo), e a total falta de visão do empresariado bahiano.
Senão vejamos. O maior museu privado do Brasil fica no Rio de Janeiro: a Coleção Castro Maia, dividido em duas sedes: a Chácara do Céu, em Santa Tereza, e a Chácara do Açude, no Alto da Boa-Vista (próximo a Vista Imperial Chinesa e a Capela Mayrink). E, como se pode ver na página do Museu, é mantida pelo Bradesco (que Dr. Castro Maia ajudou a fundar, nos anos 50) e através da venda de ingressos e de reprodução de parte de seu acervo, e aluguel de espaço para eventos. Algumas vezes, alugam para o Estado do Rio de Janeiro - e o Governo aí entra como comprador de serviço, não como financiador.
Por que o Costa Pinto, cuja origem é similar (a residência e coleção particular de um empresário nacionalista e com visão cosmpolita), não se matém assim? Porque o empresariado bahiano não vê ganho algum em financiar museu - prefere financiar abadá de bloco.
Exemplo. Quando Jean-Paul Sartre fez 100 anos, a Aliança Francesa (na Ladeira da Barra, Corredor da Vitória) fez uma série de leituras dramáticas de sua obra-prima, Entre Quatro Paredes. A menos de meia quadra de distância ficava a sede do Curso Pré-vestibular e Colégio Sartre, na Graça. A quem os atores recorreram em busca de apoio e patrocínio. Negado. Alegação: a cota de patrocínio naquele ano tinha sido toda gasta com festas de axé e trios de carnaval…
Quando digo que a responsabilidade é do Secretário Meirelles, é porque cabe a ele também provocar uma mudança mais direta do empresariado bahiano. Chamar os grandes pra conversar (talvez não a Odebrecht, que faz sua parte desde sempre, com uso permanente do TCA para propaganda institucional, por exemplo. Mas Dr. Norberto é da estirpe de Castro Maia, Walter Salles e Carlos Costa Pinto. Da velha Bahia culta) e dizer-lhes: cabe a vocês promover a cultura patrimonial, junto com o Estado que ainda tem de fomentar a cultura popular; no Rio, em Sampa e em Minas é assim. Não é vocês que se queixam que a Bahia é “provinciana”? Então, comecem por deixar de ser.
Há o problema da elitização. O Costa Pinto é luxuoso, mas o Rodin Bahia também é. No entanto, este é mais convidativo ao povo, que se sente confortável de ir de chinela. O Costa Pinto não: elitizado, com funcionamento pouco profissional (o seu excelente Café Balangandã abre quando quer e bem entende), acaba sendo um museu para turistas. A população não o frequenta como frequenta o MAM Solar do Unhão e mesmo o Museu de Arte da Bahia, logo em frente no Corredor da Vitória. Com isso, o Costa Pinto segue um modelo “Pelourinho de ACM”: um patrimônio que a população bahiana não consegue reconhecer como seu - porque na prática segue a lógica prostituta e escravocrata de pertencer ao turista.
No limite, penso que o Costa Pinto pode sim ser estatizado. A Bahia tem know-how reconhecido em gestão de museus. E a cidade carece ainda de dois tipos de museus que as outras duas grandes capitais do país tem: um de Arte Contemporânea, como já disse antes, e um Histórico. O Costa Pinto faria as vezes deste último.
A fogueira que Wagner (não) pulou
sábado, junho 27th, 2009 | Viver | 1 Comentário
O governador cometeu de uma só vez dupla irresponsabilidade e uma gafe, no feriado de São João - coisa incomum para ele e indigna de sua já lendária civilidade, diplomacia e assertividade. Ausentou-se do Estado, quando seu governo promovia a maior e mais descentralizada festa popular do mundo, e foi pra Argentina, sob risco de voltar suinamente (como Geddel) gripado.
Por mais que se diga que ele participou de quase tudo no mês inteiro de festejos juninos oficiais, e seus secretários também, a Noite de São João é cuminante - e dela ele não deveria se ausentar mesmo que não estivesse promovendo nada. E o fato de seu governo ser fortemente atuante na área não o redime da gafe - torna-a maior.
Não teve maior custo político. Mas, se voltasse de Buenos Aires dando um espirro alérgico que fosse teria de governar de uma sala isolada do Hospital (art-decor e já tombado) Octávio Mangabeira - e não da cidade heróica de Cachoeira, como ele fez acontecer desde 2007, em comemoração a Guerra de Independência do Brasil (de 25 de junho de 1822 a 2 de julho de 1823). E esta, sim, seria uma gafe irreparável - e com um custo político que eu não desejaria nem a um zé-sarney da vida.
Fica aí o cascudo, Galego. E olha que esse proustiano decadente e xibieteiro que cá batuca lhe apóia…
A Ignorãça Temporã
sexta-feira, junho 26th, 2009 | Viver | Comente!
A recente pesquisa do Ministério da Saúde sobre prevenção de contágio de HIV/AIDS gerou por um lado comemorações efusivas (li alhures, em comentários de blogs: “60% dos adolescentes usam camisinha! fico aliviada por meus filhos!”) ou preocupações consternadas, como do próprio Ministro José Gomes Temporão.
Em mim, não gera mais do que decepção - pela pesquisa, não pelo seu resultado. 20 anos de epidemia não foram suficientes para des-genitalizar o sexo.
Não conheço o protocolo de pesquisa aplicado, mas pelo que foi divulgado pelo próprio Ministério (e não apenas pela imprensa surtada brasileira) parece que a questão é de usar ou não usar camisinha numa relação sexual. Uma questão simplista, portanto.
Simplista porquê cabe perguntar: o que é uma relação sexual? Pica em buceta e pau no cu? Se for assim, 40% de adolescentes terem penetração vaginal ou anal sem preservativo é para causar pânico em qualquer sanitarista. E não corresponderia à situação de endemia controlada (apenas 700mil infectados num país que se esperava, no ano de 1986, que viesse a ter hoje quase 2 milhões).
Se a pesquisa não especifíca (e não especifíca) o que ela chama de relação sexual, ela vale tanto quanto uma enquete do Faustão. Poderia ser 0% de uso de camisinha por adolescentes - posto que as primeiras experiências sexuais de qualquer pessoa não se dá com penetração.
Aí me vem o Ministro Temporão (que de resto eu admiro muito) dizer que a única forma de prevenir HIV é usar camisinha sempre, é demais! Sempre como, Ministro? Sempre, inclui quando eu for lamber sovaco apenas? Sempre inclui sessões de punheta coletiva? Ou são estas coisas menos “relação sexual”?
Isto me lembra os anos 90, que se recomendava uso de filme plástico para fazer sexo oral em mulheres - o que obviamente ninguém usa. E hoje se sabe que o risco nestes casos é cretinamente baixo. O sexo oral em homens representa algum risco - mas ninguém usará mais camisinha por isso.
Seria muito mais proveitoso uma política de saúde que alertasse não para usar camisinha quando for chupar cacete - mas que levasse o sujeito a ponderar sobre o risco que quer correr, neste caso e em outros. E que sustentasse, no limite, e com veemência, que o sexo com penetração só é seguro com preservativo - e ponto final.
Esta ignorância do Ministro não é só dele. Graça ainda hoje entre diversas entidades sanitarias e de atenção primária em prevenção de DSTs - que fazem mais as vezes de bastiões da moral, com a idéia tutelar de que o uso livre de seu próprio corpo (numa suruba, por exemplo) é em si arriscado. Felizmente, não são todos os órgãos públicos e privados desta área que assim agem e pensam.
A ignorância do Ministro vem da incapacidade que estas instâncias têm de entender que o HIV não é uma epidemia do sexo, mas da sexualidade. Isto é: do desejo e do gozo - mas não do orgasmo e dos genitais. Isto é: que o viruzinho vem provar contumazmente aquilo que Sigmund Freud descobriu - que a relação sexual rigorosamente não existe, e que por isso qualquer relação é uma relação sexual. A maioria delas, sem nenhum risco epidêmico.
Ainda sobre o Circuito Campo Grande, de mão única
sábado, junho 20th, 2009 | Viver | Comente!
Uma outra vantagem de que a dispersão do Circuito Osmar se dê na Praça Castro Alves tem a ver com o Pelourinho. O Circuito Batatina (no Pelô) nunca passou, para mim, de uma curiosidade turística, artificalmente implantada de um modo a imitar mitologicamente (no sentido barthesiano de “mito burguês”) o que seria uma mistura do carnaval de rua do Rio de Janeiro (centro e subúrbio) com Olinda (em Pernambuco). Ao fim, é um circuito a que só vou para ver o arrear do padê de Exú dos Filhos de Gandhy - ao que iria mesmo sem circuito.
Com o término do antigamente chamado Circuito Avenida se dando na Praça Castro Alves, o Pelô se torna naturalmente uma entrada/saída deste circuito. De modo que mauricinhos de abadá, e gente pirada da pipoca, vão acabar por transitar, ocupar e usar o Circuito Pelourinho, e além: Carmo, Santo Antônio, Barbalho, se duvidar até a Liberdade (alí perto, e sede do Ilê Ayê). De modo que o Batatinha vai ganhar outra vida, e mais: fará mais sentido para os turististas se hospedarem no Centro Antigo - até mesmo na Cidade Baixa ou Nazaré. Passo também importante (mais um!) para o Pelô deixar de ser shopping, e voltar a ser bairro.
Lucas Jerzy Portela
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